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Entrevista: Filosofia e educação com o professor Affonso Henrique

Publicada no Portal do Sabelê

Professor Affonso Henrique fala sobre seu livro

O livro “Manual de Iniciação à Filosofia” foi lançado em 2007, pela editora Vozes. Organizado pelo professor Affonso Henrique Vieira da Costa, é indicado para o Ensino Médio e os primeiros períodos de Graduação, nele o aluno vai conhecer o pensamento de 24 filósofos e discutir temas distintos.

Affonso Henrique Vieira da Costa é Doutor em Filosofia pela UFRJ, atua como professor no Ensino Fundamental e Médio, em Paraíba do Sul, Três Rios e Petrópolis há 15 anos, e também coordenador dos “Debates Intempestivos” que acontece todo mês no Sesc Três Rios.

Para estrear a seção Sabelê Entrevista, a Cia do Livro conversou com o professor sobre filosofia, educação e claro, seu livro.

Cia do Livro – Como surgiu a ideia de escrever o livro?
Affonso Henrique – A ideia de se fazer um livro era antiga. Queria fazer um livro com fragmentos de textos importantes e com reflexões acerca desses mesmos fragmentos. Porém, no caso desse livro em especial, a ideia partiu do professor Gilvan Fogel. Na verdade foi ele quem me levou à editora e foi com ele que eu fiz as primeiras discussões sobre o modo como o livro deveria ser elaborado.

Qual foi o critério de escolha dos temas tratados no livro e a participação dos colaboradores?
Precisávamos de pessoas com experiência docente, pessoas estudiosas e comprometidas com o trabalho. Esse foi o primeiro critério. Convidamos, então, vários professores, alguns mestres e outros doutores, e fizemos uma reunião. Lá expomos o projeto, que foi aceito por todos, e dividimos as tarefas, na medida do possível, de acordo com a vontade de cada um.

Conte um pouco sobre a participação do seu aluno, Uálace Cristiano, como ilustrador do livro.
Esse rapaz é um menino especial. Eu dava aulas para o terceiro ano do Moacyr Padilha e ele era meu aluno. Sempre quietinho lá no fundo da sala, no canto, à direita. Muito tímido. Um belo dia, quando estava apresentando a sociologia de Émile Durkheim, após ter feito um esquema no quadro, voltei-me para explicar. Havia um grupo de alunos em volta do Uálace e rindo bastante. Então me aproximei e fui ver o que era. O Uálace havia feito uma caricatura minha. Ele ficou apavorado, branco mesmo, achando que eu brigaria com ele, mas, ao contrário, disse que estava perfeito. Até a minha boca, que é torta, estava perfeita. Ele quase morreu. Foi daí, inclusive, que surgiu o convite. Ele o aceitou e trabalhou vários dias de modo a reproduzir pinturas e esculturas fazendo uso de seus próprios traços.

Em 2006 o CNE (Conselho Nacional de Educação) aprovou a obrigatoriedade da filosofia no Ensino Médio, quais os benefícios da filosofia na educação do país? Ela deve ser obrigatória também no Ensino Fundamental?
Em primeiro lugar, havia uma enorme necessidade de abrir vagas para a área de Filosofia. Muitos profissionais estavam se formando e a disciplina de Filosofia não aparecia na grade curricular. No entanto, o mais importante não era nem isso, mas a possibilidade de se trabalhar com a especulação filosófica, com a capacidade reflexiva. A Filosofia, nesse sentido, é aguda e pode também ajudar na construção do conhecimento como um todo. No caso do Ensino Fundamental sabemos que ela é aplicada em vários colégios da rede particular de ensino em diversos Estados. Não sei se seria o caso de forçar uma obrigatoriedade. Seria preciso fazer uma análise mais detalhada da grade para verificar se isso é viável e se é mesmo essencial. Em todo caso, a pergunta pelo sentido da educação é o que deve atravessar todas as decisões.

No livro você diz “Procuramos articular o pensamento com a exigência de uma boa elaboração de textos, encaminhamos também propostas de redação que, não por acaso, foram feitas inclusive com o objetivo de auxiliar todas as outras disciplinas”, no Ensino Médio a filosofia deve ser uma disciplina ou uma atividade interdisciplinar?
Eis aí o que é mais importante e que precisa ser dito. A Filosofia possui um conteúdo específico. Mas qual é a sua especificidade? Qual a sua grande questão? Não é a vida? Neste sentido ela sai da esfera do particular e salta para o geral, para a totalidade, para aquilo mesmo que envolve todas as disciplinas. A Filosofia é uma ciência do geral, da totalidade. As demais disciplinas possuem a sua peculiaridade que é, cada qual, trabalhar com um objeto específico, particular. Só por isso é que a Filosofia transita entre todas as outras áreas como uma matéria anterior. E se for permitido que ela assuma a sua tarefa, ela, de fato, pode contribuir para a chamada interdisciplinaridade, embora não se resuma a isso.

A nova prova do Enem, aplicada em 2009, foi toda reformulada, deixou de ser o famoso “decoreba” e passou a ser mais humanizada. A filosofia como uma ciência que faz pensar, questionar, refletir ajuda diretamente o aluno a se preparar para a prova?
Sobre isso não tenho nenhuma dúvida. Porém, criamos um novo problema. Será que a Filosofia se reduziria a apenas uma disciplina auxiliar, que ajuda a fazer uma prova? Acho que ela é muito maior do que isso. Ela tem o poder de transformar as nossas vidas, de nos fazer ir ao encontro do sentido do próprio real. Ela nos permite, inclusive, perguntar sobre qual educação queremos para os jovens. Queremos apenas indivíduos preparados para fazer o ENEM ou qualquer outro concurso? Ou queremos formar homens capazes de criar e transformar, agindo e interagindo com outros homens de maneira honesta e sincera como cidadãos conscientes de suas ações?

Após quatro anos da lei no CNE, como você vê a Filosofia dentro das escolas?
Ainda é cedo para avaliar. As Licenciaturas também precisam se adaptar a essa nova realidade. Precisam evoluir. O certo é que os professores terão um imenso trabalho que não deve se restringir a preparar alunos para o vestibular. As escolas também não devem achar que a inclusão da Filosofia é um abuso e que essa disciplina é secundária e só aumenta ainda mais o já imenso conteúdo a ser aplicado ao Ensino Médio. Os professores têm diante de si uma imensa tarefa e devem estar cientes disso.

Tem planos para escrever outros livros?
Sim. Há um projeto de transformar a minha tese de doutorado num livro. Mas é bom que tenhamos presente que o livro é resultado de um trabalho. Não se pode escrever apenas para publicar. É importante que se tenha algo a dizer. E quando sai e vai para a esfera do público, é preciso que se esqueça do que foi feito e que se faça outro, pois o trabalho é o que dá sentido à vida.