A ‘nordestinidade’ em São Paulo, por Raquel de Queiroz

Lendo os 100 artigos que o Estadão selecionou em homenagem ao centenário de Rachel de Queiroz, comemorado na última quarta (17), e logo nos primeiros da lista -publicado há 22 anos (25/11/88)-, a jornalista/escritora fala sobre a discriminação dos paulistas com os nordestinos, após a vitória da nordestina Luíza Erundina nas eleições para prefeitura naquele ano.

Infelizmente, como vimos nos últimos dias, o texto continua atual.

Reproduzo abaixo o artigo -os grifos são meus:

A aceitação da ‘nordestinidade’ agora inadiável, por Rachel de Queiroz

Meses atrás, neste espaço, comentando a mistura étnica de São Paulo, falei nas ondas sucessivas de migrantes que desembarcam na Paulicéia e assinalei a última, a dos nordestinos, que chega para ficar. Atrevi-me a fazer uma projeção para o futuro; se a primeira geração deles (e por que não digo nós, afinal, quem sou eu?) desembarca analfabeta na rodoviária, a segunda já cursa o primeiro e o segundo graus. A terceira vai para a universidade, e aí já é paulista mesmo. Tão paulista que até já discrimina e estranha os conterrâneos que descem do ônibus com a sua malinha (lá dizemos malota) forrada de pano.

Acontece às vezes que, aqui no Brasil, os fatos passam à frente da imaginação. E a marcha, antes lenta, dos nordestinos, na sua conquista da cidadania paulista, de tal forma se acelerou que atropela todas as previsões. Até as mais delirantes Erundina, quem diria? Outro dia chegou e logo subiu tanto. Verdade que não aportou analfabeta, como os patrícios em geral. Já era estudada, formada, sabida, treinada pelos marxistas católicos que no Nordeste proliferam com grande eficiência. O solo é fértil. Mas nem quero discutir os méritos de Luíza Erundina, prefeita da cidade de São Paulo, tão evidentes se tomaram esses méritos. Queria mesmo era tranqüilizar os paulistas, diante da nossa marcha tão rápida. Mais rápida que a dos italianos, japoneses, árabes e demais imigrantes. Claro que encontramos facilidades que faltaram a eles. A mesma língua, evidente, malgrado as diferenças no sotaque e no coloquial. E seria ousadia afirmar que a cultura deles é a mesma cultura vossa? Não falo em macarronada versus carne-seca, em doce de jaca contra strudel. Mesmo porque no Norte paulista também dá jaca nativa, como dá pequi. Aliás o pequi, fruto nacional dos goianos, tão Brasil Central, dá também no nosso Cariri, onde é muito apreciado. Só que com menos polpa, mais raquítico. Igual que nem nós. Ah, o Brasil todo é muito misturado, não adianta querer isolar etnias, que nem é bom nem dá certo.

Então, insisto: só estou prevenindo, pedindo que se acostumem a aceitar a nordestinidade. Passado o entusiasmo pela eleição de Luíza Erundina, virão as inevitáveis decepções Afinal, milagre é pra santo; vencer nesse campo de batalha é desafio não para uma só Paraíba, mas para o padre Cícero com todos os seus romeiros. E pode ser até que nem ele vencesse. Minha idéia era brincar com o susto dos quatrocentões e dos grandes ricos, ante a blitzgrieg dos nordestinos. Mas há que falar sério. Já não se trata de ameaça (?), mas de fato irreversível. Eles estão aí. E não apenas como mão-de-obra barata, plebe carente das favelas, bóias-frias, serventes de obras, empregadas domésticas. Eles já queimaram essas etapas, conforme se viu, e agora brigam pelas lideranças. Estão aí Lula, pernambucano, Erundina, paraibana, Genoíno, cearense, Luís Medeiros, amazonense, filho de nordestino. Não mais carneiros de batalhão, mas à frente da tropa, carregando bandeira e pendão. Hoje, ao sol da vitória, mostram-se radicais ideológicos, quase xiitas. Mas ninguém se assuste muito. ti poder ensina, e quanto. Algum tempo mais e estarão no mesmo grupo aflito de nós todos, descrentes do poder criador do grito e da denúncia. Mas e se de repente eles acertam, mudam o Brasil (o que a gente deseja mas não acredita) —, meu Deus, quem c} quer? Também é bom se acostumarem aos novos nomes nas manchetes do dia, com os nossos apelidos familiares: Neco, Lula, Biu, Chiquim, Manduca, Socorro, Mundica, Erundina. É assim que a gente se chama por lá, quando não é nome inventado, como Aricleide; Geldion. E, modéstia à parte, é como já se chama por grande parte do Sul Maravilha.

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1 comentário

  1. achei engraçado quando ela falou que no ne proliferam catolicos marxistas com o terreno fertil da pobreza sertaneja e cia..ela tinha talento como escritora e esse artigo é interessante, mas infelizmente cai em alguns lugares comuns do marxismo cultural ja nos 80s-ii..tal como essa de dizer que tudo tem que ser uma merda só..ela se contradiz por que ao mesmo tempo que fala em nordestinismos e cia, fala em fusões e desse modo os nordestinos acabam sendo absorvidos pelos paulixos na cultura e os paulixos absorvidos pelos nordestinos no dna e ambos os grupos acabam extintos e sumindo do mapa restando apenas um bando de hibridos que nem é um e nem é outro..

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