O silêncio de Eduardo Coutinho

Encontrei com Eduardo Coutinho duas vezes, a primeira vez foi em 2010, num congresso da Revista Cult em São Paulo, confesso (com vergonha) que fui  participar da mesa dele por causa de João Moreira Salles (que faltou), não conhecia Eduardo Coutinho, melhor, não relacionei ele aos seus documentários –tenho um péssimo defeito, amo cinema, mas não sou muito ligada em diretores–, e naquela noite de quarta-feira eu e todos que estavam lá escutamos ele falar por quase 2 horas ou mais, não me lembro, e viraríamos a noite se possível.

Uma das falas dele que mais me marcou naquela noite foi “Como pedir a fala sem ter o silêncio”, tentando explicar a angústia que sentimos diante do silêncio interminável de seus filmes.

O segundo e último encontro foi na última Flip, após uma das mesas mais interessantes da festa, ele autografou o livro “O olhar no Documentário”, publicado pela Cosac Naify numa edição especial para Flip, fui para fila e ali na fila uma demora começou a chamar atenção dos seus fãs, Eduardo Coutinho não só autografava, ele conversava e fazia uma mini entrevista com cada um. Foi me dando um nervoso, imaginando que perguntas ele iria me fazer, tentando formar respostas naquele curto espaço de tempo. Quando chegou a minha vez, Coutinho me fez as seguintes perguntas “Meu nome? Onde morava? O que eu fazia da vida?”, um conversa rápida e deliciosa, comentei que depois do congresso passei a me interessar mais por documentários e de repente ele me pergunta o que eu quero que ele escreva no livro, como assim? e fiquei muda, não sabia o que responder e ele ficou lá em silêncio, foi segundos, mas pareceu uma eternidade até sair um “o que você quiser” e de uma forma bem louca o que falei era tudo precisava naquele momento.

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Sua morte de forma tão trágica deixa um silêncio enorme no cinema brasileiro, no mesmo congresso ele disse “sem filmar, eu fico mais burro ainda”, sem ele nós que ficamos mais burros.

a falta

Não conhecia a escrita do Ricardo Lísias, pra falar a verdade (momento vergonha), nunca tinha ouvido falar dele ou pelo menos não lembro. Então sai no Globo uma matéria sobre ele e o seu novo livro “O céu dos suicidas”, minha vontade era largar tudo e começar a ler na mesma hora.
Quase um mês depois ele fura a fila das próximas leituras, ganha um bom lugar na lista dos melhores de 2012 e também aquela vontade louca se ler tudo que ele escreveu ao mesmo tempo agora.
Ricardo, o personagem, narra a sua angustia e luta para superar a perda de um grande amigo que acabou de se suicidar, o André. O céu dos suicidas é uma ficção que se mistura com a vida do próprio autor, que em 2008 perdeu um amigo da mesma forma, quando viu estava escrevendo/pesquisando sobre o tema e transformou a dor em literatura, por sinal, uma das mais belas que já li.

Alguns trechos do livro:
“Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se.”
“Tenho feito descobertas: quando a gente grita na rua, ninguém repara.”
“Comecei dizendo que não aguentava mais aquela loucura. Também o lembrei aos berros que não colecionava selos. Depois, falei que ele estava tentando chamar atenção. Por fim, disse que eu ira voltar na hora do almoço e que então queria achar meu apartamento em ordem. E tudo consertado. Ele apenas repetia que era meu amigo.”
“Sinto saudades de tudo e isso me irrita.”

O céu dos suicidas, editora Alfaguara, R$ 34,90.

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